![]() |
| House e o charme do desvio |
Há quem goste da ideia de ter um cérebro quimicamente desbalanceado e desfrutar dessa característica como forma de enxergar o mundo sobre uma ótica menos normalóide, padronizada e ainda “herdar” algumas qualidades ditas tragas por esse desbalanceamento químico.
Com a popularização de personagens fora do comum que enaltecem uma certa genialidade e idiossincrasia, pessoas têm dado mais atenção a certos sintomas de alguns transtornos e os adotado para suas vidas como forma de dizerem-se "diferentes".
![]() |
| John Nash, esquizofrênico e gênio da matemática (Uma Mente Brilhante) |
Misantropia, personalidade dissocial e bipolaridade são alguns exemplos. Às vezes até a esquizofrenia que de bela não tem nada acaba sendo adotada por pessoas extremamente sadias.
Mas qual a razão de uma pessoa normal querer adotar para si sintomas de certos transtornos? Por que descrever-se como doente e ter a ideia de que isso é legal? Primeiro fator a se observar é que há um certo glamour em alguns transtornos, devido a ideia de que tais transtornos aperfeiçoam qualidades que pessoas normais não têm. Segundo que a sociedade exige muito um comportamento fora do normal, e nesse comportamento entram certas características de alguns transtornos que passam a ser considerados qualidades. Como a euforia fora do comum que um bipolar pode ter, a capacidade de viver bem sozinho que um misantropo possui, ou então, o hiperfoco que só um TDAH pode usufruir.
Mas para casos como esse, é importante enfatizar que uma qualidade em um doente não é suficiente para compensar todo o desequilíbrio emocional que este carrega. E tais qualidades exigidas pela sociedade não suprem a ausência ou deficiência de algumas características em um doente, como o controle emocional ou impulsivo, por exemplo. Antes de adotar tais transtornos como estilo de vida, é interessante saber o quanto um doente pode tirar vantagem de seu problema se comparado a uma pessoa sadia.
![]() |
| Travis Bickle, o transtornado imortalizado em Taxi Driver |
Pessoas bipolares podem ser criativas, mas oscilam entre mania e depressão. E devido a depressão, podem deixar um trabalho supercriativo inacabado, ou dependendo do caso, entrarem numa hipermania e exagerarem no senso de criatividade transformando o trabalho em algo incompreensível e confuso; assim como TDAHs podem ter o hiperfoco acima do comum, porém este foco pode não ser controlável e para todas as atividades que ele precisa fazer em um dia, são em poucas que ele consegue se concentrar.
Filmes e séries costumam dar visibilidade a essas personalidades e uma distorção e glamourização acaba ocorrendo. Geralmente os personagens são estereotipados e com características clássicas de tais transtornos para que estes possam ser percebidos. Já os defeitos que acompanham os transtornos, muitas vezes são excluídos ou pela produção ou pelo próprio público.
Uma pessoa sadia tende a ser estável emocional e psicologicamente, um doente não. E ainda que uma qualidade oscile muito de maneira positiva em um doente, defeitos podem ser potencializados devido a um transtorno e isso prejudica a qualidade de vida do indivíduo.
Portanto, não há beleza em classificar-se como doente por modismo ou como meio de enfatizar uma qualidade. Depender de medicamentos e psicoterapia para ter um cérebro estável, descobrir meios de entender a doença e aprender a controlar-se não é bonito, não é atraente e não pode ser encarado como modismo. É desrespeitoso ao doente que precisa aprender todos os dias a conviver com seu problema de maneira sadia, não prejudicar a si mesmo e nem as pessoas a sua volta.
Quer mandar seu texto para o Café e Analgésicos? Saiba como clicando aqui.
Daniela Amadeu
| Daniela Amadeu: dona do Unknown Blogueira, bloga desde 2009 e gosta de transformar em post tudo o que a cerca. |







